O Sistema Único de Saúde (SUS) se prepara para um significativo reforço em sua capacidade de atendimento obstétrico e neonatal. O Ministério da Saúde anunciou a incorporação de <b>760 novos profissionais</b>, atualmente em formação no curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica da Rede Alyne. Esta iniciativa visa preencher uma lacuna crucial na assistência à saúde da mulher no Brasil, investindo na humanização do parto e na segurança materno-infantil em todo o país.
Investimento Estratégico na Formação de Especialistas
A ação representa um investimento federal de <b>R$ 17 milhões</b>, direcionado à capacitação de enfermeiros com pelo menos um ano de experiência na atenção à saúde das mulheres no SUS. O curso, que teve início em novembro de 2023, é coordenado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em colaboração com 38 instituições parceiras e o apoio fundamental da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo). O objetivo central é dotar o SUS de mais especialistas, fortalecendo a rede de atendimento desde a gestação até o pós-parto.
A Urgência da Carência de Profissionais no Brasil
A necessidade desses novos profissionais é evidente diante da escassez atual no país. O Brasil conta com apenas <b>13 mil enfermeiros obstétricos</b> registrados no sistema do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Desse total, somente 46%, equivalente a 6.247 profissionais, possuem vínculo com algum estabelecimento de saúde cadastrado no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), o que sublinha a insuficiência para atender à demanda nacional.
Em um comparativo internacional, a densidade de enfermeiros obstétricos no Brasil é de apenas <b>cinco por mil nascidos vivos</b>, segundo dados da Abenfo de 2023. Essa proporção contrasta drasticamente com a de países que adotam modelos de atenção baseados na enfermagem obstétrica, onde a densidade varia entre 25 e 68 profissionais por mil nascidos vivos, reforçando a defasagem brasileira.
O Papel Central do Enfermeiro Obstétrico na Assistência Humanizada
O enfermeiro obstétrico é um profissional especializado fundamental que acompanha a mulher em todas as fases da maternidade: durante a gravidez, o parto e o pós-parto. Sua atuação foca nos partos naturais e vaginais, promovendo uma experiência mais humanizada, segura e tranquila para a gestante. Suas responsabilidades incluem a realização de exames, auxílio direto no parto, prestação de cuidados ao recém-nascido e colaboração estreita com a equipe médica para garantir um atendimento integral.
Impacto na Qualidade do Parto e na Saúde Materno-Infantil
Renné Costa, conselheiro do Cofen, avalia que o impacto da medida é amplamente positivo, destacando a discrepância global. Ele aponta que, enquanto o Brasil tem aproximadamente um enfermeiro obstétrico para cada quatro médicos, em muitos países desenvolvidos, essa proporção se inverte, com quatro enfermeiros obstétricos para cada médico. Esta disparidade reflete diretamente na assistência.
Uma das principais contribuições da enfermagem obstétrica é o respeito à fisiologia do parto, permitindo que o corpo da mulher conduza o processo naturalmente. Isso resulta na <b>redução de intervenções desnecessárias</b> e, consequentemente, na diminuição da incidência de iatrogenias – efeitos adversos ou condições patológicas causadas por tratamentos de saúde. Costa ressalta que o Brasil está entre os países com maior número de partos operatórios (cesarianas), o que vai na contramão das recomendações científicas e aumenta em 70 vezes o risco de morte materna.
Desafios Culturais e a Luta Contra a Violência Obstétrica
O conselheiro do Cofen também aborda a questão cultural que envolve o parto no Brasil. Segundo ele, o parto natural é frequentemente associado ao SUS e a uma condição de “pobreza” ou falta de opção, enquanto o parto operatório é visto como um privilégio de quem tem plano de saúde e deseja evitar a dor. Essa percepção é, em parte, alimentada pela mídia, onde novelas frequentemente retratam o parto como um momento de intenso sofrimento e angústia, desestimulando a via fisiológica.
Há uma lacuna na cultura popular sobre os benefícios e a segurança do parto natural. O enfermeiro obstétrico atua como um defensor do parto com o mínimo de intervenções e contra a violência obstétrica. Isso inclui evitar procedimentos desnecessários, como o uso indiscriminado de ocitocina ou a Manobra de Kristeller – uma técnica em que o útero é pressionado para auxiliar na expulsão do bebê, mas que é contraindicada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por causar sérios danos à mãe e ao bebê, como rupturas de costelas e hemorragias. A intervenção desses profissionais visa justamente valorizar a sabedoria do corpo feminino no processo de nascimento.
Um Futuro de Cuidado Mais Humano e Seguro
A chegada desses 760 novos enfermeiros obstétricos ao SUS representa um passo crucial para transformar a realidade da atenção materno-infantil no Brasil. Ao investir na formação e na valorização desses especialistas, o Ministério da Saúde não apenas combate a carência de profissionais, mas também reafirma o compromisso com a humanização do parto, a redução de intervenções desnecessárias e a garantia de um cuidado mais seguro e respeitoso para todas as gestantes e seus bebês. Esta iniciativa é um pilar fundamental para construir um sistema de saúde mais equitativo e alinhado com as melhores práticas globais em obstetrícia.



