O Brasil testemunhou mais de 150 Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) desde a Eco 1992, com uma concentração notável nas favelas do Rio de Janeiro. Dentro desse panorama de intervenções militares na segurança pública, o documentário 'Cheiro de Diesel', recém-lançado, emerge para lançar luz sobre um período de intensa militarização e suas consequências. A produção cinematográfica foca nas violações dos direitos humanos e no clima de terror vivenciados por moradores de comunidades cariocas durante os megaeventos esportivos sediados entre 2014 e 2018, desvelando a dura realidade por trás da retórica de segurança.
O Cenário das Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)
As operações de Garantia da Lei e da Ordem representam um mecanismo constitucional que autoriza o emprego das Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – em situações de grave comprometimento da ordem pública. Acionadas exclusivamente por ordem expressa da Presidência da República, as GLOs são consideradas uma medida de último recurso, ativadas apenas quando as forças de segurança convencionais se mostram ineficazes. Essa prerrogativa foi utilizada de forma contínua no país, com um histórico de frequentes mobilizações que, segundo o documentário, transformaram favelas em palcos de intervenções complexas e, muitas vezes, controversas.
“Cheiro de Diesel”: Um Retrato da Ocupação na Maré
A narrativa central do documentário, dirigido pelas jornalistas Natasha Neri e Gizele Martins, mergulha na 'Operação São Francisco', uma GLO instaurada no Complexo da Maré, Rio de Janeiro, em 2014. Dois meses antes da Copa do Mundo, um decreto presidencial mobilizou 2,5 mil homens das Forças Armadas para 15 favelas da região. A escolha da Maré não foi aleatória; sua posição estratégica, abrangendo vias cruciais como a Linha Amarela, a Linha Vermelha, a Avenida Brasil e o acesso ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, a tornou um ponto focal para as autoridades. Com uma duração oficial de 14 meses e um custo estimado em R$ 350 milhões aos cofres públicos, a intervenção rapidamente se desviou de sua promessa de segurança, acumulando uma série de denúncias de tortura, coerções, assassinatos, invasão de residências e outras irregularidades.
Gizele Martins, co-diretora e moradora da Maré, relata a rápida mudança de percepção dos habitantes. "No primeiro momento, foi nos vendido a ideia de segurança. Mas no primeiro dia de invasão do Exército, os moradores já começaram a mudar de opinião, pois só naquele dia mais de 20 ou 30 crianças foram detidas porque estavam nas ruas da favela. Casas foram invadidas. Organizações sociais invadidas", relembra, evidenciando o abismo entre a expectativa e a realidade brutal vivenciada pela população local.
A Escalada das Intervenções e o Modelo de Atuação Militar
Apesar das reações mistas à eficácia da 'Operação São Francisco', o Rio de Janeiro viu a decretação de outras três GLOs entre 2016 e 2018. Em 2016, uma nova operação foi implementada em meio às Olimpíadas, e em 2018, o estado foi palco de uma intervenção federal militar sem precedentes, onde um interventor assumiu o controle total da segurança pública e da administração penitenciária. O general Walter Braga Netto, que posteriormente seria ministro da Defesa no governo Bolsonaro e condenado em 2023 por sua participação na trama golpista, foi o nome escolhido para a intervenção. Gizele Martins descreve a Maré como um 'grande laboratório para esse modelo de atuação do Exército', observando a replicação de padrões de violação de direitos em mais de 50 favelas cariocas em 2017, consolidando um modelo de atuação militarizado na gestão da segurança pública.
As Graves Violações e a Questão da Justiça Militar
Natasha Neri, também diretora do filme, enfatiza o contexto político como um fator determinante na decretação das GLOs, que, segundo ela, são utilizadas para criar uma "suposta sensação de segurança à população" em grandes eventos, uma promessa que não se concretiza com a presença ostensiva de veículos militares em áreas residenciais. O documentário detalha casos chocantes, como o de Vitor Santiago, morador da Maré alvejado por tiros de fuzil disparados por um cabo do Exército em fevereiro de 2015, resultando em 98 dias em coma, amputação de uma perna e paraplegia. O cabo, no entanto, foi absolvido pela Justiça Militar. Outros eventos brutais incluem a 'Chacina do Salgueiro', em novembro de 2017, onde oito jovens foram assassinados por soldados, e a tortura de 11 jovens no Complexo da Penha em 2018, episódio conhecido como 'Sala Vermelha', que ocorreu tanto na mata da Penha quanto dentro de um quartel do Exército.
A impunidade nesses casos é agravada pela Lei nº 13.491, sancionada em 2017 pelo então presidente Michel Temer, que transferiu a investigação e o julgamento de crimes cometidos pelas Forças Armadas contra civis para a Justiça Militar. Neri destaca que um dos propósitos fundamentais de 'Cheiro de Diesel' é expor a inconstitucionalidade e a problemática dessa prerrogativa, que perpetua a falta de responsabilização e aprofunda o ciclo de violência contra as comunidades já vulneráveis.
Conclusão: O Legado de Uma Militarização Questionável
'Cheiro de Diesel' não é apenas um filme, mas um registro histórico e um clamor por justiça. Ao dar voz aos moradores que viveram na linha de frente dessas intervenções, o documentário desmistifica a narrativa oficial de segurança e expõe as profundas cicatrizes deixadas pelas GLOs no tecido social das favelas cariocas. A obra serve como um alerta contundente sobre os perigos da militarização da segurança pública e a urgente necessidade de revisão das políticas que permitem o uso das Forças Armadas em contextos urbanos, especialmente quando isso acarreta em flagrantes violações dos direitos humanos e impunidade. A história de Vitor Santiago e de tantos outros retratados no filme sublinha a importância de manter acesa a memória e de buscar caminhos para uma segurança pública que respeite, acima de tudo, a dignidade e a vida.



