Radiografia da Agenda Feminina: Estudo Avalia Propostas para Mulheres em Planos Presidenciais

Radiografia da Agenda Feminina: Estudo Avalia Propostas para Mulheres em Planos Presidenciais

As pautas direcionadas às mulheres têm ganhado cada vez mais relevância no debate político e social. Contudo, a profundidade e a abrangência com que essas questões são incorporadas nos programas de governo de candidaturas à Presidência da República nem sempre correspondem às expectativas e necessidades do público feminino. Um levantamento minucioso realizado pelo Instituto Update, que analisou as propostas de 12 candidatos ao cargo máximo do executivo federal, revela um cenário complexo: embora as mulheres sejam frequentemente reconhecidas como destinatárias de políticas, há um avanço aquém do esperado quando o objetivo é inseri-las como agentes de decisão e considerar a totalidade de suas experiências cotidianas. Esta análise detalhada expõe não apenas os temas prioritários, mas também as lacunas significativas na construção de uma agenda verdadeiramente inclusiva e empoderadora.

O Cenário das Propostas para Mulheres na Política

O estudo do Instituto Update constatou que as propostas voltadas para o público feminino permeiam diferentes espectros políticos, concentrando-se predominantemente em três grandes áreas: combate à violência, saúde e cuidado. Essa presença, ainda que variada, sinaliza um reconhecimento generalizado de problemas que afetam as mulheres. Entretanto, a pesquisa aponta uma carência notável em abordar dimensões cruciais como a participação política feminina, a ocupação de espaços de poder, a segurança em ambientes públicos e a autonomia econômica em sua plenitude. É importante ressaltar que a metodologia do levantamento considerou apenas propostas explicitamente formuladas para mulheres, desconsiderando políticas universais – de segurança, emprego, saúde, educação ou transporte – que poderiam, indiretamente, beneficiá-las. Além da ausência temática, a diretora executiva do Instituto Update, Carol Althaller, enfatiza outro ponto crítico: a falta de detalhamento. Muitas propostas carecem de planos claros de implementação, metas concretas, instrumentos de ação e articulação com políticas já existentes, tornando-as mais referências do que estratégias estruturadas.

Desafios na Participação Política Feminina

Um dos achados mais contundentes da pesquisa é a forma como as mulheres são percebidas nos programas eleitorais: majoritariamente como receptoras de políticas, e não como protagonistas ativas no poder. Essa visão contrasta drasticamente com a demanda popular, evidenciada na pesquisa “Mulheres em Diálogo” (2025) do próprio Instituto Update, onde 72% das entrevistadas expressaram total concordância com o aumento da representação feminina em cargos políticos. Apesar desse forte apoio social, apenas um dos 12 candidatos analisados apresentou uma proposta específica sobre a participação político-eleitoral feminina. Essa proposta incluía medidas para combater a violência política de gênero, promover a formação de candidatas e lideranças, e estabelecer regras mais justas para o financiamento partidário. Um segundo candidato ampliou o escopo para a presença feminina em espaços de liderança e decisão, com iniciativas para incentivar a liderança feminina e o compromisso de indicar mulheres para vagas no Supremo Tribunal Federal. A diretora Carol Althaller sublinha a distância entre o reconhecimento das próprias mulheres sobre sua capacidade de formular soluções, especialmente em áreas como a segurança pública (70% das mulheres acreditam ter melhores ideias, segundo pesquisa Update/Fogo Cruzado), e o espaço limitado que essa capacidade ocupa nos programas governamentais.

O Combate à Violência Contra a Mulher: Um Tema Prioritário, Mas Incompleto

A violência contra as mulheres desponta como a agenda mais disseminada entre os planos de governo, com nove dos 12 programas analisados (75%) contendo propostas explícitas sobre feminicídio, proteção às vítimas ou violência contra a mulher. Se o critério fosse expandido para incluir toda e qualquer proposta sobre violência doméstica, esse número subiria para dez planos. As estratégias propostas são variadas, abrangendo a ampliação de redes de proteção e casas-abrigo, a integração entre os setores de segurança, Justiça, saúde e assistência social, o monitoramento eletrônico de agressores, a efetivação de medidas protetivas e o endurecimento penal. Contudo, o instituto ressalta que, embora os programas reconheçam amplamente a mulher como vítima da violência, eles falham em incorporar a percepção de insegurança que restringe a circulação feminina e o uso da cidade. Apenas um candidato estabelece uma conexão explícita entre a segurança das mulheres e a mobilidade, incluindo o transporte urbano. A pesquisa “Mulheres, Polícia e Facções” (2026), fruto de uma parceria do Instituto Update com o Instituto Fogo Cruzado, ilustra essa lacuna ao revelar que 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite, 59% já deixaram de frequentar determinados locais por insegurança e 31,4% desistiram de usar algum meio de transporte pelo mesmo motivo. Para Althaller, esses dados qualitativos demonstram que a noção de segurança para as mulheres é muito mais abrangente, incluindo questões como iluminação pública, qualidade do transporte, prevenção da violência de gênero, revitalização de áreas abandonadas e o fortalecimento de redes comunitárias – dimensões que frequentemente ficam fora de uma agenda meramente focada em policiamento e punição.

Autonomia Econômica e Outras Dimensões da Segurança

A autonomia econômica, um pilar fundamental para o empoderamento feminino, é abordada em mais da metade dos planos de governo, presente em sete das 12 candidaturas (58%). No entanto, o significado e a profundidade dessas propostas são variados, refletindo diferentes perspectivas sobre como garantir a independência financeira das mulheres. A diversidade de abordagens nesse tema ressalta a necessidade de propostas mais robustas e integradas que considerem a complexidade das barreiras enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho e na gestão de suas vidas financeiras. A ampliação do conceito de segurança, conforme levantado pelos estudos qualitativos do Instituto Update, evidencia que a autonomia das mulheres vai além da mera proteção contra a violência doméstica, englobando a capacidade de ir e vir com tranquilidade, de acessar oportunidades e de participar plenamente da vida pública e econômica sem impedimentos. Uma abordagem que ligue a segurança urbana à autonomia econômica e social é essencial para construir cidades e sociedades mais equitativas.

Rumo a Uma Agenda Mais Abrangente e Estruturada

O levantamento do Instituto Update oferece um panorama valioso sobre a inserção das pautas femininas nos planos de governo, revelando um reconhecimento inicial, mas também deficiências significativas. Enquanto temas como a violência e a saúde feminina já encontram algum espaço, questões cruciais como a participação política, a autonomia em seu sentido mais amplo e a segurança urbana sob a ótica feminina ainda carecem de propostas estruturadas e detalhadas. O desafio para os futuros governantes reside em transcender a visão da mulher como mera receptora de políticas, para posicioná-la como sujeito de decisão e protagonista em todas as esferas da vida. Para que a agenda feminina evolua de referências vagas para políticas públicas eficazes, é imperativo que os programas eleitorais incorporem um olhar mais holístico, que conecte as diferentes dimensões da vida das mulheres, desde a segurança no lar e na rua até sua plena participação econômica e política. Somente assim será possível traduzir a crescente demanda social por equidade em programas de governo que de fato promovam o empoderamento e a qualidade de vida das mulheres brasileiras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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