Gigantes Sul-Coreanas Investem em Chips de Memória Avançados na China Sob Olhar Atento dos EUA
Em um cenário global impulsionado pela crescente demanda por inteligência artificial (IA) e acirrada competição, Samsung Electronics e SK Hynix, as maiores fabricantes de chips de memória da Coreia do Sul, estão revitalizando suas operações na China. A estratégia visa modernizar as fábricas locais para produzir chips de memória NAND mais sofisticados, capazes de armazenar maior volume de dados. Essa iniciativa, contudo, é executada sob o atento escrutínio das restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos, que limitam o fornecimento de equipamentos para a indústria chinesa de semicondutores.
A modernização busca aprimorar a densidade dos chips NAND através do aumento do número de camadas, uma tecnologia crucial para atender às exigências de dispositivos modernos e centros de dados. O movimento é também uma resposta direta ao avanço tecnológico e à expansão da participação de mercado da chinesa Yangtze Memory Technologies (YMTC), que tem ganhado terreno rapidamente na região.
O Labirinto das Restrições Americanas
As ambições de modernização das empresas sul-coreanas na China esbarram nas complexas regulamentações comerciais dos EUA. Samsung e SK Hynix necessitam de licenças anuais do governo americano para instalar certos equipamentos fabricados nos EUA em suas unidades chinesas. Essa política foi endurecida, com o Departamento de Comércio americano indicando que, a partir de 2025, a intenção é autorizar a continuidade das operações existentes, mas não a expansão da capacidade produtiva nem a modernização tecnológica, sem um processo de licenciamento rigoroso.
Ambas as fabricantes afirmam estar em constante consulta com Washington para garantir a conformidade com as regras de exportação vigentes. A delicada negociação envolve a aprovação para a transferência de equipamentos essenciais, cuja obtenção nem sempre é clara, evidenciando o desafio geopolítico que permeia o setor de semicondutores.
A Estratégia de Alta Camadagem da Samsung em Xi'an
A Samsung está focando sua modernização na fábrica de Xi'an, localizada no noroeste da China, responsável por aproximadamente 40% da produção global de memória NAND da empresa. O projeto, batizado internamente de “Monami”, visa a transição dos atuais chips de cerca de 200 camadas para componentes de 286 camadas. Essa elevação tecnológica permitirá um armazenamento de dados significativamente maior em um mesmo componente.
Os planos de produção são ambiciosos: atingir 5 mil wafers mensais até dezembro de 2026 e escalar para 40 mil wafers por mês até dezembro de 2027. A Samsung enfatiza que esta iniciativa responde à demanda de clientes globais, incluindo os americanos, e não representa uma expansão da capacidade produtiva ou a construção de novas instalações, buscando assim alinhar-se às diretrizes regulatórias americanas.
SK Hynix Aposta em Dalian e Visão de Longo Prazo
Paralelamente, a SK Hynix concentra seus esforços na fábrica de Dalian, no nordeste chinês, adquirida da Intel em 2021 e que agora faz parte da Solidigm. O objetivo é produzir chips NAND com no mínimo 240 camadas, superando os componentes de 192 camadas fabricados atualmente. A empresa já possui autorização para produzir chips de até 240 camadas e vislumbra a possibilidade de solicitar permissão para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias além das 300 camadas.
Além da modernização em Dalian, a SK Hynix também explora um leque mais amplo de estratégias, incluindo negociações com o governo dos EUA para a construção de uma nova fábrica de NAND em território americano, evidenciando uma abordagem diversificada para o futuro da produção de memória.
A Ascensão da YMTC e a Pressão Competitiva na China
A urgência das modernizações é intensificada pela rápida ascensão da Yangtze Memory Technologies (YMTC). A empresa chinesa tem expandido sua participação no mercado doméstico de chips NAND, passando de 28% em 2025 para 38,5% no segundo trimestre de 2026. Em contrapartida, a participação da Samsung no mercado chinês recuou de 36% para 33,5% no mesmo período, e a da SK Hynix caiu de 20% para 17%.
A YMTC tem demonstrado avanços tecnológicos significativos, produzindo principalmente chips de 160 e 232 camadas, além de volumes menores de 294 camadas, com planos ambiciosos de ultrapassar a marca das 300 camadas. Essa evolução tecnológica e de mercado da concorrente local cria uma pressão considerável sobre as fabricantes sul-coreanas para manterem sua relevância e liderança no setor.
O Impacto da Memória NAND na Era da IA
A memória NAND, fundamental para o funcionamento de celulares, computadores e unidades de armazenamento em centros de dados, tornou-se ainda mais crítica com a expansão da inteligência artificial. A capacidade de armazenar grandes volumes de dados de forma eficiente é vital para o desenvolvimento e operação de sistemas de IA, que exigem processamento e armazenamento massivos.
A lógica é simples: quanto maior o número de camadas em um chip NAND, maior pode ser sua capacidade de armazenamento e menor o custo por unidade de dados, tornando a tecnologia mais acessível e eficiente. Globalmente, Samsung e SK Hynix já comercializam chips com avançadas contagens de camadas, com a Samsung apresentando protótipos de mais de 400 camadas e a SK Hynix vendendo componentes de até 321 camadas fora da China, demonstrando seu potencial tecnológico que agora buscam replicar (com as devidas restrições) em suas fábricas chinesas.
Conclusão: Balanço Estratégico em um Mercado Dinâmico
As modernizações das fábricas de Samsung e SK Hynix na China representam um complexo exercício de equilíbrio estratégico. Impulsionadas pela insaciável demanda da IA e pela crescente competição de players locais como a YMTC, as empresas sul-coreanas buscam manter sua vanguarda tecnológica. Contudo, essa evolução é intrinsecamente ligada às restrições geopolíticas e à necessidade de navegar por um emaranhado de regulamentações internacionais.
O sucesso dessas iniciativas não apenas garantirá a capacidade das empresas de atenderem ao mercado chinês e global, mas também reafirmará sua posição de liderança em um setor que é a espinha dorsal da economia digital. A saga da memória NAND na China é um microcosmo das tensões e oportunidades que definem a indústria tecnológica global no século XXI, onde inovação, concorrência e geopolítica se entrelaçam inseparavelmente.
Fonte: https://www.estadao.com.br