A era de Xi Jinping na China tem sido marcada por uma consolidação de poder sem precedentes e uma visão ambiciosa para o futuro da nação, projetando-se globalmente com crescente assertividade. No entanto, em meio a essa postura dominante, crescem as vozes de analistas e observadores internacionais que questionam a sustentabilidade do modelo chinês e levantam preocupações sobre os rumos do país. Há um debate intenso sobre se as políticas atuais, de fato, aceleram um cenário de desafios profundos ou se a China está apenas passando por uma fase de ajuste e redefinição estratégica. Este artigo explora as diversas frentes de tensão que alimentam essa narrativa, desde a economia até a geopolítica, buscando compreender a complexidade do momento chinês.
A Centralização Hegemônica do Poder Político
A ascensão de Xi Jinping à liderança trouxe uma mudança fundamental na estrutura política da China, distanciando-se do modelo de liderança coletiva em favor de uma autoridade centralizada e altamente personalizada. A abolição dos limites de mandato em 2018 cimentou sua posição como líder potencialmente vitalício, gerando questionamentos sobre a governança futura e a estabilidade sucessória. Críticos argumentam que essa hiperconcentração de poder pode levar a decisões menos transparentes e menos responsivas às necessidades da população, além de sufocar o debate interno e a inovação política. A ampla campanha anticorrupção, embora popular entre o público, também foi percebida como um meio eficaz de eliminar rivais políticos e consolidar ainda mais o controle partidário.
Ventos Contrários e Desafios Estruturais na Economia
A economia chinesa, motor de crescimento global por décadas, enfrenta agora desafios estruturais significativos que testam sua resiliência. A crise imobiliária, exemplificada pela situação de grandes construtoras como a Evergrande, revela um setor endividado e uma bolha de ativos que ameaça a estabilidade financeira e a poupança das famílias. Paralelamente, a dívida dos governos locais atingiu níveis alarmantes, com muitas províncias enfrentando dificuldades para sustentar seus projetos de infraestrutura e serviços públicos. A política de 'prosperidade comum', embora visando reduzir as desigualdades sociais, tem gerado incerteza no setor privado e desencadeado repressões regulatórias sobre gigantes da tecnologia e empresas de educação. Soma-se a isso a crise demográfica, com o rápido envelhecimento da população e a queda nas taxas de natalidade, que ameaçam a força de trabalho futura e o sistema de previdência social, contribuindo para uma desaceleração geral do crescimento que impacta a confiança de investidores estrangeiros.
Controle Social Amplificado e Questões de Direitos Humanos
Sob a égide de Xi Jinping, a China tem implementado um sistema de vigilância e controle social de amplitude sem precedentes. A expansão da tecnologia de reconhecimento facial e de megadados para monitorar cidadãos, juntamente com o sistema de crédito social, gera profundas preocupações sobre as liberdades individuais e a privacidade. Em regiões como Xinjiang, a repressão à minoria uigur e a existência de campos de 'reeducação' têm sido amplamente denunciadas por organizações de direitos humanos e governos ocidentais, que as caracterizam como um genocídio cultural. Adicionalmente, a autonomia de Hong Kong foi drasticamente erodida pela Lei de Segurança Nacional, silenciando vozes dissidentes e desmantelando a sociedade civil, antes vibrante, da cidade, o que representa um claro recuo nos compromissos de 'Um País, Dois Sistemas'.
Geopolítica Assertiva e Tensão nas Relações Internacionais
A política externa da China tem se tornado cada vez mais assertiva sob Xi Jinping, adotando uma postura que alguns chamam de 'diplomacia do lobo guerreiro'. Isso se manifesta em disputas territoriais no Mar do Sul da China, pressões crescentes sobre Taiwan e retóricas mais confrontacionais com potências ocidentais. A relação com os Estados Unidos e seus aliados tem se deteriorado significativamente, impulsionada por guerras comerciais, disputas tecnológicas e acusações de espionagem. Esforços de 'desacoplamento' (decoupling) econômico e tecnológico por parte de nações ocidentais visam reduzir a dependência da China, o que pode impactar negativamente a cadeia de suprimentos global e o acesso chinês a tecnologias críticas, potencialmente levando a um isolamento relativo e dificultando sua plena integração no sistema global.
Conclusão: Um Futuro Incerto em Meio a Transformações
É inegável que a China sob Xi Jinping enfrenta uma confluência de desafios complexos, tanto internos quanto externos. Embora a narrativa de um 'colapso' possa ser considerada extrema por alguns, os múltiplos pontos de tensão – desde a centralização política e os problemas econômicos estruturais até a intensificação do controle social e a postura geopolítica mais assertiva – sugerem que o país está em um momento de profunda transformação. O futuro da segunda maior economia do mundo dependerá crucialmente da capacidade do Partido Comunista de navegar essas águas turbulentas, conciliando a ambição de grande potência com as pressões internas e as demandas por estabilidade e desenvolvimento sustentável. Os próximos anos serão determinantes para moldar o cenário chinês e global, revelando se as políticas atuais fortalecerão ou, de fato, corroerão as fundações da China moderna.



