O Carnaval do Rio de Janeiro se prepara para um momento histórico e profundamente simbólico com a estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial. A agremiação niteroiense apresentará um samba-enredo que transcende a mera celebração, narrando a epopeia de uma retirante nordestina: Eurídice Ferreira de Mello, a Dona Lindu, mãe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, o enredo promete uma jornada poética e emocional, contada sob a perspectiva daquela que moldou o destino de um dos líderes mais proeminentes do país.
A Voz da Esperança: Dona Lindu no Coração do Carnaval
O coração do samba-enredo pulsa na voz ficcional de Dona Lindu, que, em primeira pessoa, descreve a árdua travessia de sua família. Mãe de oito filhos, ela revive a jornada de “13 noites e 13 dias” a bordo de um caminhão “pau-de-arara”, partindo de Garanhuns, no agreste pernambucano, em direção à periferia de Guarujá, no litoral paulista. Essa odisseia, marcada pela esperança de uma vida melhor, é o fio condutor da narrativa que a Acadêmicos de Niterói levará à Marquês de Sapucaí.
A motivação para essa épica migração, conforme revelado pela cantora e compositora Teresa Cristina, uma das mentes por trás do samba-enredo, era o amor e a união familiar. “Ela fez isso por amor, né? Ela veio atrás do pai [das crianças]”, explica Teresa, sublinhando a força motriz feminina por trás da saga. A canção, portanto, celebra não apenas a figura de Dona Lindu, mas a resiliência e a capacidade de superação de inúmeros brasileiros, transformando a história pessoal em um hino universal. Teresa Cristina assina a obra em parceria com um time talentoso de compositores, incluindo André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr.
A Emoção do Homenageado: Lula Reencontra a Mãe na Música
O impacto do samba-enredo na vida do presidente Lula, cuja mãe faleceu em 1980, aos 64 anos, foi profundo. Teresa Cristina compartilha que, ao ser informado de que a história seria contada pela perspectiva de Dona Lindu, os olhos do presidente “marejaram” de imediato. Ao ouvir a melodia e a letra, Lula se emocionou visivelmente, chorando copiosamente e rememorando detalhes de sua mãe e pai. A artista relatou que o presidente demonstrou grande felicidade por ver a história de sua família e suas raízes imortalizadas de forma tão tocante e significativa no carnaval.
Da Caatinga ao Palácio: Uma Trajetória Imortalizada
O título do enredo faz referência ao “mulungu” (mulungu-da-caatinga), uma árvore robusta com flores avermelhadas, que servia de local de brincadeira para crianças no agreste, incluindo Lula e seus irmãos. Esse simbolismo remete às origens humildes do presidente, nascido no sertão pernambucano, que ascendeu de operário no ABC paulista, líder sindical e político até o cargo máximo da nação. Wallace Palhares, presidente da Acadêmicos de Niterói, defende que a trajetória de Lula merece reconhecimento, independentemente de filiações políticas, como um exemplo da capacidade de superação brasileira.
Além da jornada pessoal de Lula, o samba-enredo tece uma tapeçaria de referências que abrangem melhorias sociais ocorridas durante seus mandatos, como o combate à fome e a ampliação do acesso à educação. A letra também presta homenagens a importantes figuras da história brasileira, como o ex-deputado Rubens Paiva, a estilista Zuzu Angel e o jornalista Wladimir Herzog, vítimas da ditadura militar, e os irmãos Betinho e Henfil, símbolos de resistência e solidariedade. Há ainda uma referência sutil, mas intencional, ao clássico “Vai Passar”, de Chico Buarque, com versos que remetem à obra. Teresa Cristina explicou que essa inclusão visava evocar a memória do samba e, ao mesmo tempo, celebrar a integridade de Chico Buarque, um artista que “nunca se dobrou à bruta autoridade”.
Enredos Históricos: Lula e Outras Personalidades no Samba
A escolha de Lula como tema de samba-enredo não é inédita. Em 2012, a Gaviões da Fiel, de São Paulo, o homenageou com “Verás que um filho teu não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação”. Mais recentemente, em 2023, a Cidade Jardim, de Belo Horizonte, desfilou com “Sem medo de ser feliz”. Essa tradição de escolas de samba abordarem figuras presidenciais e personalidades históricas reflete o papel do carnaval como espelho e palco da história e da cultura nacional, imortalizando legados e promovendo reflexões sobre o Brasil.
Com a Acadêmicos de Niterói, a história de Dona Lindu e a trajetória de Lula se fundem na Sapucaí, transformando um desfile em um poderoso testemunho de amor, luta e resiliência. O samba-enredo não é apenas uma homenagem, mas um convite à reflexão sobre as raízes do Brasil, a força de seu povo e a capacidade de transformar destinos, honrando a memória de uma mãe que, com sua jornada, semeou a esperança.


