Havana, a vibrante capital cubana, é hoje o cenário de uma crise sem precedentes, onde seus moradores descrevem o cotidiano como o "pior momento" já vivido pela nação. O endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos no final de janeiro desencadeou uma cascata de dificuldades que afetam profundamente a vida dos cubanos, manifestando-se em apagões prolongados, uma disparada nos preços de produtos básicos, a redução drástica do transporte público e a diminuição da já escassa cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado.
Apagões: Da Previsibilidade ao Caos Diário
A situação energética de Cuba atingiu um ponto crítico, transformando a rotina de milhões. Os apagões, antes uma realidade com alguma previsibilidade na capital, tornaram-se imprevisíveis e significativamente mais longos. Ivón B. Rivas Martinez, uma arquiteta de 40 anos e mãe solo, relata à Agência Brasil a dramática mudança: "Antes, havia cerca de quatro horas sem energia por dia na capital, depois aumentou para cinco horas. Com o agravamento da crise, esse tipo de planejamento não é mais possível. Ninguém sabe quantas horas podem ser. Hoje houve 12 horas de apagão". A situação é ainda mais grave nas províncias do interior da ilha, onde as interrupções podem durar quase o dia todo, como exemplificado pela dificuldade de sua tia em estocar alimentos.
Essa deterioração energética é uma consequência direta das ações do governo Donald Trump. No final de janeiro, a administração Trump ameaçou com tarifas países que vendessem petróleo à nação caribenha, classificando Cuba como uma "ameaça incomum e extraordinária" à segurança dos EUA, justificando tal medida pelo alinhamento político de Havana com Rússia, China e Irã. Dada a dependência cubana de termelétricas, que geram cerca de 80% da energia do país a partir de combustíveis fósseis, essas restrições limitaram drasticamente a capacidade de aquisição de petróleo no mercado global.
Serviços Paralisados e Inflação Crescente
Os efeitos dos apagões vão muito além da falta de luz. Ivón Rivas detalha como a interrupção da energia paralisa praticamente todos os serviços essenciais em Havana. As bombas de água, cruciais para o abastecimento, param de funcionar. A comunicação é severamente comprometida, com falhas na telefonia e internet. Operações cotidianas, como sacar dinheiro em caixas eletrônicos ou realizar procedimentos legais em cartórios, tornam-se impossíveis na ausência de eletricidade, expondo a fragilidade da infraestrutura e a interconexão das dificuldades enfrentadas pela população.
Paralelamente à escassez energética, a ilha vivencia uma escalada acentuada nos preços dos produtos básicos. A arquiteta observou um aumento "muito mais acelerado do que antes" nas últimas semanas para itens cruciais como arroz, óleo e carne de frango, componentes fundamentais da dieta cubana. Esse encarecimento agrava ainda mais a pressão sobre os orçamentos familiares, já apertados pelas dificuldades econômicas.
Superando o 'Período Especial': Uma Crise Sem Precedentes
Feliz Jorge Thompson Brown, um economista cubano aposentado de 71 anos e tio de Ivón, avalia que o momento atual supera em severidade o famoso "Período Especial" da década de 1990. Aquela época foi marcada pela queda do bloco socialista liderado pela União Soviética, privando Cuba de seus principais parceiros comerciais. Feliz Jorge, que tinha seis anos quando a Revolução triunfou em 1959, declara que a situação energética atual é "o momento mais difícil que o país já enfrentou. É [o momento] mais cruel e severo do que durante o período especial, tanto material, quanto espiritualmente mais desafiador".
O economista aponta que, diferentemente da década de 1990, quando a juventude ainda conhecia os avanços sociais da Cuba revolucionária, hoje existe uma incerteza maior, pois muitos não vivenciaram plenamente os primeiros anos da Revolução, o que impacta a compreensão e a resiliência coletiva. Além disso, Feliz Jorge argumenta que o Estado perdeu capacidade em comparação com o "Período Especial" para fornecer a cesta básica de alimentos subsidiada, um pilar de apoio fundamental à população, tornando a situação atual ainda mais complexa e desafiadora.
Resiliência Testada em Meio à Incerteza
A vida em Havana e por toda Cuba é uma demonstração diária de resiliência frente à adversidade. As vozes de Ivón Rivas e Feliz Jorge Brown ecoam a realidade de uma nação que se vê confrontada com uma crise multifacetada, onde as restrições externas e as fragilidades internas criam um cenário de profundas incertezas. A população cubana, imersa em um cotidiano de desafios crescentes, continua a buscar caminhos para subsistir e superar o que é descrito como o período mais difícil de sua história recente.



