Reforma Tributária Expõe ‘Falsa Automação’ e Desafios Fiscais Críticos em Empresas Brasileiras

A iminente implementação do Imposto sobre Valor Adicionado Dual (IVA dual) no Brasil, com sua entrada em vigor prevista para menos de nove meses, está desvelando uma realidade preocupante no cenário corporativo nacional. Muitas empresas se deparam com a insuficiência e a fragilidade de seus processos fiscais, que ainda são marcados por uma dependência excessiva de tarefas manuais e por uma notável lentidão operacional. Essa condição, que já compromete a eficiência diária e a conformidade, é agora intensificada pela proximidade de uma das mais significativas transformações tributárias do país, exigindo uma reavaliação urgente e profunda das estratégias de automação corporativa.

O Contraste entre Percepção e Realidade na Automação Fiscal

Um levantamento recente da V360, empresa especializada em soluções para automatizar o pagamento de fornecedores, lança luz sobre a gritante disparidade entre a crença das empresas em sua maturidade fiscal e a prática real. A pesquisa revela que uma parcela alarmante das companhias, totalizando 62,2%, leva mais de 20 dias para registrar uma nota fiscal em seus sistemas, sendo que 22,3% chegam a ultrapassar 30 dias para a mesma tarefa. Paradoxalmente, 87% dessas mesmas empresas afirmam possuir um alto nível de automação fiscal. Essa acentuada discrepância é classificada por especialistas como 'falsa automação', um fenômeno em que os processos são digitalizados, mas ainda exigem intervenção humana substancial para sua conclusão, evidenciando gargalos sistêmicos e ineficiências latentes.

Detalhes da Automação Incompleta e Seus Impactos Operacionais

Aprofundando-se nos dados, o estudo demonstra que a automação nas empresas ainda é parcial e, em muitos casos, superficial. Embora 61% das empresas consigam capturar notas fiscais automaticamente, menos da metade desse universo, apenas 49%, realiza o registro completo no sistema sem a necessidade de ação manual. A raiz desse problema reside na dependência que os sistemas de Enterprise Resource Planning (ERP) — concebidos como o 'cérebro' operacional das empresas — têm de integrações e validações adicionais para funcionar plenamente dentro da complexa e mutável estrutura tributária brasileira. Izaias Miguel, CEO da V360, explica que 'o documento entra automaticamente, mas ainda precisa de ajustes e conferências antes de seguir no sistema', o que prolonga o ciclo de processamento e introduz pontos de falha. A pesquisa ouviu 355 profissionais de médias e grandes empresas, com 63% delas processando mais de 10 mil notas fiscais mensais, o que agrava exponencialmente os desafios de ineficiência e controle.

Riscos Crescentes com a Validação Deficiente de Notas Fiscais

A fragilidade nos processos de validação de notas fiscais representa um risco operacional elevado para as corporações. A pesquisa indica que apenas 48% das empresas realizam uma conferência completa, comparando minuciosamente itens, valores e quantidades das notas com os pedidos de compra originais. Uma parcela considerável, 44%, executa apenas checagens parciais, enquanto um preocupante percentual de 8% ainda depende de processos totalmente manuais. Este cenário aumenta exponencialmente a probabilidade de ocorrência de pagamentos indevidos, erros fiscais e uma significativa perda de controle interno, especialmente em organizações que lidam com um volume expressivo de fornecedores. Conforme Izaias Miguel, 'o tempo entre a emissão e o registro da nota é um termômetro claro de eficiência. Quando leva semanas, há acúmulo de exceções e retrabalho', impactando diretamente a saúde financeira e a conformidade fiscal da empresa.

A Reforma Tributária: Um Desafio Adicional para Estruturas Frágeis

A introdução do novo modelo tributário, que incluirá o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) como componentes fundamentais do IVA Dual, promete intensificar as pressões sobre as estruturas fiscais já consideradas ineficientes. As empresas precisarão gerenciar simultaneamente regras tributárias antigas e novas, exigindo adaptações complexas em seus sistemas e processos de conformidade. O principal desafio, na visão do CEO da V360, transcende a mera compreensão teórica da reforma, residindo na sua execução prática dentro de ambientes corporativos muitas vezes caracterizados por fragmentação e baixa integração de sistemas. A incapacidade de realizar checagens fiscais completas e automatizadas, conforme apontado pelo estudo, amplifica consideravelmente o risco de erros num momento de transição crítica para todo o sistema tributário nacional.

Fase de Testes e a Urgência da Automação Estratégica

O ano de 2026 marcará o início da fase de testes da reforma tributária, com a cobrança de alíquotas simbólicas (0,9% de CBS e 0,1% de IBS), que serão deduzidas dos tributos atuais. A partir de 2027, haverá a extinção gradual de cinco tributos sobre o consumo e o consequente aumento das alíquotas de CBS e IBS. No entanto, mesmo nesta fase inicial e 'simbólica', as *obrigações acessórias* são imediatas e cruciais. As empresas deverão detalhar a CBS e o IBS nas notas fiscais, preencher novos campos obrigatórios e garantir a correta classificação fiscal de produtos e serviços. Apesar de a Receita Federal ter suspendido multas por falta de discriminação desses tributos até o quarto mês após a regulamentação, a necessidade de adequação tecnológica e processual é imperativa. Izaias Miguel enfatiza que, neste novo contexto, a automação transcende seu papel operacional, tornando-se uma ferramenta estratégica fundamental: 'Empresas mais eficientes tendem a ganhar agilidade para lidar com as mudanças, enquanto aquelas com processos fragmentados podem enfrentar mais custos, erros e dificuldades de adaptação, comprometendo sua competitividade'.

Diante da iminente reforma tributária e das revelações sobre a prevalência da 'falsa automação', as empresas brasileiras são chamadas a reavaliar profundamente suas estratégias e sistemas fiscais. A transição para o IVA Dual exige mais do que meras digitalizações superficiais; demanda uma automação genuína, robusta e integrada que minimize a intervenção humana, mitigue riscos e garanta a conformidade plena. Aqueles que investirem proativamente em sistemas e processos eficientes não apenas evitarão penalidades e retrabalho, mas também se posicionarão estrategicamente para prosperar em um ambiente tributário renovado, transformando um desafio complexo em uma oportunidade de otimização operacional e aumento da competitividade no mercado.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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