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Vladimir Safatle: Pensadores Devem Superar o Medo de Nomear o Fascismo Contemporâneo

junho 4, 2026 | by cardminas

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O filósofo Vladimir Safatle tem sido uma voz crítica contundente contra a relutância de certos intelectuais em classificar movimentos autoritários de extrema direita atuais como fascistas. Em uma entrevista exclusiva à Agência Brasil, o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) defende a urgência de superar o receio de identificar esse fenômeno e, mais profundamente, de compreender a lógica racional por trás do apoio a tais movimentos. Ele aponta para uma mentalidade de "não há espaço para todos; alguém terá de sair, e é melhor que esse alguém não seja eu", refletindo uma lógica de exclusão e autopreservação. Safatle abordará essas questões em maior profundidade no debate "Novos Fascismos Globais", parte da programação d’A Feira do Livro, em São Paulo.

A Redefinição do Fascismo e a Crítica à Limitação Histórica

Safatle argumenta que a noção de fascismo tem sido artificialmente restrita, confinando-o a um fenômeno histórico específico da Itália nos anos 1930, o que, para ele, impede a percepção de suas manifestações contemporâneas. Essa circunspeção do termo é vista pelo filósofo como uma decisão política deliberada, cujo objetivo é obscurecer a forma como as democracias liberais frequentemente naturalizaram, em determinados contextos e contra certos grupos, práticas e formas de violência tipicamente associadas a estruturas fascistas. Ele propõe, assim, uma reflexão acadêmica que permita a evolução do conceito, desvinculando-o de uma única época e local e abrindo caminho para uma compreensão mais abrangente das dinâmicas de poder atuais.

Da Violência Normalizada aos "Fascismos Restritos"

O professor da USP vai além ao sugerir que, em vez de considerar a democracia liberal como uma estrutura política natural e homogênea, seria mais acurado falar em "fascismos restritos". Estes se manifestam como formas sistemáticas de violência aplicadas a grupos sociais específicos e em territórios determinados, tornando-se práticas normais dentro da sociedade. No entanto, em momentos de crise, esses "fascismos restritos" têm a capacidade de se generalizar, expandindo seu alcance e intensificando a violência, o que ele observa como uma característica do cenário atual. Essa perspectiva ajuda a entender a racionalidade instrumental que, segundo Safatle, motiva o apoio a regimes autoritários, onde a exclusão do "outro" é vista como uma condição para a própria sobrevivência ou bem-estar de um grupo, e os intelectuais que se recusam a ver essa realidade se tornam, em certa medida, cúmplices do processo.

As Raízes Coloniais da Brutalidade Contemporânea

Em sua análise, Safatle traça uma linha histórica crucial, conectando a estrutura de violência do fascismo clássico às práticas coloniais. Ele afirma que os dispositivos e tecnologias de violência que caracterizam o fascismo – como guerra de raça, supremacismo, desaparecimento forçado, extermínio, massacres administrativos, indiferença a genocídios e a criação de estados duais – foram, em sua maioria, desenvolvidos e aprimorados dentro de contextos coloniais. Essa matriz colonialista, segundo o filósofo, é perpetuada de diversas formas em países com forte herança colonial, a exemplo do Brasil, moldando a relação do Estado com certas populações e mantendo viva uma estrutura de violência que transcende épocas e se manifesta de novas maneiras na contemporaneidade.

A Perspectiva da Democracia e a Realidade da Desigualdade

A discussão sobre o fascismo leva Safatle a questionar a própria noção de democracia, propondo uma reflexão fundamental: "democracia na perspectiva de quem?". Ele ilustra essa questão com um contraste marcante na realidade brasileira. Enquanto para um morador de um bairro nobre como Higienópolis, a democracia pode ser uma realidade palpável, garantindo integridade pessoal e ausência de violência arbitrária, para um residente do Complexo do Alemão, onde massacres ocorrem sem justiça ou comoção pública, a ideia de democracia torna-se uma "obscenidade". Essa distinção radical sublinha como as formas de violência típicas de estruturas fascistas são, para alguns, uma realidade cotidiana, mesmo sob um regime que se autodenomina democrático, expondo as profundas fraturas sociais e a aplicação seletiva da cidadania.

A provocação de Vladimir Safatle é um convite urgente para que a academia e a sociedade civil abandonem a complacência e o medo de nomear as formas de autoritarismo contemporâneo como fascismo. Ao desmistificar a excepcionalidade histórica do fascismo e ao expor suas raízes coloniais e suas manifestações normalizadas nas democracias liberais, especialmente em contextos de crise e desigualdade, o filósofo exige uma análise mais honesta e corajosa da nossa realidade política. Sua perspectiva ressalta que o silêncio e a recusa em confrontar esses fenômenos acabam por perpetuar e fortalecer os processos que minam as fundações de uma sociedade verdadeiramente justa e democrática para todos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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