A máxima de que 'senso comum e comunismo não têm nada em comum' pode parecer, à primeira vista, uma redundância linguística dada a sonoridade similar de seus prefixos. Contudo, essa afirmação encapsula uma distinção fundamental e profunda entre duas esferas de pensamento e ação humanas que, embora lidem com a organização social, operam sob lógicas, origens e objetivos diametralmente opostos. Este artigo busca desvendar a natureza de cada um desses conceitos e elucidar por que, em essência, eles representam abordagens conflitantes sobre a realidade e o futuro das sociedades.
A Natureza Pragmaticamente Enraizada do Senso Comum
O senso comum pode ser definido como o conjunto de crenças, valores, conhecimentos e opiniões que são geralmente aceitos e compartilhados por uma determinada comunidade sem a necessidade de um escrutínio crítico rigoroso ou validação científica. Ele surge da experiência cotidiana, da observação empírica e da transmissão cultural, formando uma espécie de sabedoria popular que orienta a vida prática dos indivíduos. Caracteriza-se por sua imediatez, praticidade e por ser, muitas vezes, conservador, resistente a mudanças radicais, pois busca soluções pragmáticas para a sobrevivência e a funcionalidade social em um dado contexto.
É a base para a compreensão de fenômenos simples e relações interpessoais, oferecendo respostas rápidas a problemas quotidianos. Embora vital para a coesão social e a adaptabilidade humana, o senso comum não é infalível; ele pode ser enviesado, preconceituoso e incapaz de lidar com complexidades que exigem uma análise mais profunda e sistemática, como a que a ciência ou a filosofia buscam oferecer.
O Paradigma Teórico e Revolucionário do Comunismo
Em contraste, o comunismo é uma doutrina política, social e econômica de origem filosófica, que propõe a criação de uma sociedade sem classes sociais, na qual os meios de produção (fábricas, terras, etc.) são de propriedade coletiva, e não privada. Desenvolvido principalmente a partir das ideias de Karl Marx e Friedrich Engels, o comunismo não se baseia na experiência espontânea, mas em uma análise crítica da história e da estrutura econômica capitalista.
Seus postulados fundamentais incluem a abolição da propriedade privada, a superação da exploração do trabalho, a coletivização dos recursos e a eventual desaparição do Estado. O comunismo visa uma transformação radical da sociedade por meio de uma revolução do proletariado, projetando um futuro utópico de abundância, igualdade absoluta e cooperação irrestrita, onde cada indivíduo contribuirá de acordo com suas capacidades e receberá de acordo com suas necessidades.
Pontos de Divergência Fundamental: Prática vs. Teoria, Individual vs. Coletivo
A inconciliabilidade entre senso comum e comunismo reside nas suas próprias raízes e métodos. Enquanto o senso comum emerge organicamente das interações humanas e da observação do mundo como ele é, o comunismo é uma construção ideológica complexa, que propõe como o mundo deveria ser, baseada em uma teoria abrangente. O senso comum tende a valorizar a propriedade individual, a família e a meritocracia (mesmo que de forma simplificada) como elementos naturais da organização social, buscando soluções graduais para problemas.
O comunismo, por outro lado, desafia frontalmente essas concepções, argumentando que a propriedade privada é a raiz da desigualdade e da exploração. Prioriza o coletivo em detrimento do individual e propõe uma reengenharia social completa, muitas vezes de forma coercitiva, para alcançar seus ideais. A visão do senso comum sobre a liberdade individual, por exemplo, muitas vezes se choca com a subordinação do indivíduo aos interesses do coletivo, tal como proposto pelas vertentes mais autoritárias da implementação comunista.
As Implicações Históricas e a Percepção Pública
Ao longo da história, as tentativas de implementar sociedades comunistas em larga escala frequentemente esbarraram em obstáculos que o senso comum já antevia: a complexidade da gestão centralizada de economias vastas, a supressão de incentivos individuais, a burocratização e a tendência ao autoritarismo. Essas experiências históricas, marcadas por carências econômicas e restrições de liberdades, reforçaram a percepção popular de que os ideais comunistas são, na prática, difíceis de alinhar com a natureza humana e a lógica pragmática da vida cotidiana.
O senso comum, ao observar as consequências reais de regimes que se autodenominaram comunistas, tende a rejeitar suas propostas por considerá-las irrealistas ou contrárias à experiência acumulada. A persistência de hierarquias, a busca por reconhecimento individual e a complexidade das relações econômicas e sociais mostram-se resilientes à moldagem puramente ideológica, sugerindo que a realidade opera sob princípios mais intrincados do que uma teoria abstrata pode abarcar.
Conclusão: Duas Lógicas Incompatíveis
Em suma, embora as palavras 'senso comum' e 'comunismo' compartilhem uma raiz etimológica, sua essência e suas implicações são radicalmente distintas. O senso comum é uma sabedoria prática e empírica, forjada na experiência e na necessidade de coexistência imediata, tendendo à evolução gradual e à aceitação de certas realidades. O comunismo, por sua vez, é uma ideologia filosófica e política que propõe uma ruptura radical com o status quo, visando uma transformação estrutural completa da sociedade com base em um plano abstrato e ambicioso.
A afirmação de que não possuem nada em comum é, portanto, uma constatação de que operam em planos diferentes de compreensão e intervenção social. Enquanto um se curva à complexidade observável do mundo, o outro busca moldá-lo rigidamente a partir de um ideal teórico, o que historicamente tem gerado profundas fricções e demonstrado a sua fundamental incompatibilidade.



