Alasca: Base de 13.800 Anos Revela Novas Pistas Sobre a Ponte Terrestre da Beríngia e a Colonização das Américas
Uma equipe internacional de pesquisa, liderada pela Universidade do Kansas (KU), desenterrou evidências arqueológicas significativas no sítio Shég’ Xdaltth’í’, no Alasca. Datado em 13.800 anos, este local, que serviu como um 'acampamento base', oferece novas e cruciais informações sobre como os primeiros humanos povoaram as Américas, sugerindo uma ligação vital entre assentamentos em ambos os lados da antiga ponte terrestre da Beríngia. As descobertas, encabeçadas pela pesquisadora da KU e primeira autora do estudo, Kelly Graf, são esperadas para 'esclarecer como e quando as pessoas viajaram da Ásia para as Américas', um tema que permanece amplamente debatido na comunidade científica.
Desvendando a Migração Pré-Clovis na Beríngia
Apesar do consenso científico de que os primeiros humanos migraram do Nordeste da Ásia através da Beríngia, uma antiga ponte terrestre que conectava os dois continentes, a complexidade da colonização das Américas tem sido um desafio para arqueólogos. Enquanto geneticistas sugerem que até cinco populações humanas diferentes podem ter habitado a Beríngia entre 16.000 e 13.000 anos atrás antes de se estabelecerem nas Américas, a correlação entre essas inferências genéticas e a variabilidade documentada no registro arqueológico da região ainda é obscura. Além disso, evidências arqueológicas mais controversas, com datas que remontam a quase 50.000 anos e que indicam possíveis travessias oceânicas, adicionam camadas de complexidade à teoria da Beríngia como a única via de entrada, tornando a busca por novas pistas ainda mais urgente.
O Sítio Arqueológico Shég’ Xdaltth’í’: Um Marco no Passado
Em sua busca por soluções para este antigo mistério, Graf e sua equipe concentraram seus esforços em uma região no centro-leste do Alasca, na área do sudoeste do Yukon. Esta área é notável por conter 19 sítios arqueológicos que antecedem a amplamente aceita cultura Clovis americana, que surge por volta de 13.200 anos atrás. Apesar de sua dispersão por uma área comparável ao estado de Maryland, nos EUA, esses sítios compartilham semelhanças culturais. O sítio Shég’ Xdaltth’í’ (pronuncia-se shehg xuh-tuhl-TTH’EE, significando 'Eles estavam lá' na língua Athabascan nativa do Alasca, e anteriormente conhecido como McDonald Creek) é particularmente importante, pois representa a concentração mais densa de arqueologia pré-Clovis e Clovis nas Américas, com três componentes arqueológicos distintos datando de 13.800, 13.000 e 12.700 anos atrás.
Artefatos Revelam Conexões Culturais Trans-Beríngias
O foco da pesquisa recaiu sobre o Componente C1 de Shég’ Xdaltth’í’, datado em 13.800 anos, centenas de anos antes dos primeiros sítios Clovis. A análise aprofundada da equipe forneceu novos insights sobre sua estratigrafia, cronologia de radiocarbono, artefatos, características excepcionalmente preservadas e vestígios faunísticos e florais. Com mais de 80.000 espécimes arqueológicos, o sítio revelou um 'impressionante conjunto de vestígios culturais', incluindo uma 'forma única de biface haftado', várias ferramentas ósseas (como agulhas, furadores, pingentes e pontas), uma gama diversificada de restos de fauna e áreas de atividade bem preservadas, um registro sem paralelo para esta idade na Beríngia.
A descoberta mais significativa é a semelhança das ferramentas, especialmente a forma de biface haftado, com artefatos encontrados em sítios mais a oeste, mais próximos da Ásia. Esta correspondência sugere uma provável 'conexão cultural trans-Beríngia'. Além disso, o sítio apresentou a ocupação mais antiga conhecida do Complexo Nenana a leste da Ponte Terrestre da Beríngia, reforçando ainda mais um 'importante elo cultural trans-Beríngia' e consolidando a ideia de que a interação e a movimentação de povos não se limitavam apenas a uma direção.
Pontes Culturais Além da Beríngia: Conectando o Norte e o Sul
Para além das conexões com sítios asiáticos, o trabalho da equipe em Shég’ Xdaltth’í’ também revelou indícios de ligação com os primeiros sítios americanos localizados ao sul das grandes geleiras canadenses. Esta descoberta é fundamental, pois sugere uma continuidade cultural e tecnológica entre as populações que inicialmente se estabeleceram na Beríngia e aquelas que, posteriormente, se dispersaram pelo continente, formando os assentamentos pré-Clovis, Clovis, Folsom, Western Stemmed e/ou Paleoíndios Tardios. Essa correlação direta entre o norte e o sul do continente é um passo crucial para finalmente alinhar os registros arqueológicos com as previsões genéticas sobre a complexa história da colonização humana nas Américas.
Novos Horizontes para a História Humana nas Américas
As descobertas no sítio Shég’ Xdaltth’í’ representam um avanço monumental no entendimento da colonização das Américas. Ao fornecer um registro arqueológico detalhado e sem precedentes de uma era crítica, este 'acampamento base' de 13.800 anos não apenas ilumina as rotas de migração através da Ponte Terrestre da Beríngia, mas também estabelece pontes culturais entre diferentes regiões e temporalidades. A capacidade de correlacionar artefatos com sítios na Ásia e, simultaneamente, vislumbrar ligações com as culturas mais ao sul do continente, aproxima os pesquisadores da tão almejada união entre os dados genéticos e arqueológicos. Este trabalho não só enriquece nossa compreensão sobre os primeiros povos que habitaram este continente, mas também sublinha a intrincada rede de interações e adaptações que moldaram a história humana em um dos capítulos mais fascinantes da pré-história global.
Fonte: https://thedebrief.org