Brasil se Despede de Roberto Tibiriçá: O Maestro que Deixou um Legado Imortal
O cenário da música clássica brasileira e internacional amanheceu de luto neste sábado, 3 de agosto, com a notícia do falecimento do renomado maestro paulista Roberto Tibiriçá. Aos 72 anos, o artista, que dedicou sua vida à regência e à formação musical, nos deixou em São Paulo, onde estava internado para tratamento de um câncer. Sua partida representa uma perda inestimável para a cultura, marcando o fim de uma trajetória de excelência e paixão pela música.
O Impacto de Sua Ausência e Últimos Acordes
Desde 2022, o Maestro Tibiriçá exercia a importante função de regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP), deixando uma marca indelével na instituição. Tanto a OSP quanto o Centro Cultural Teatro Guaíra, por meio de seu diretor-presidente Cleverson Cavalheiro, expressaram profundo pesar pela perda. Cavalheiro, em uma homenagem emocionada, destacou que, embora o maestro tenha partido, seu legado 'permanecerá vivo em cada músico, em cada concerto e em cada pessoa que foi tocada por sua música'. A Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), instituição que Tibiriçá dirigiu artisticamente a partir de 1994, e posteriormente regeu como titular, também lamentou a morte do colega e mestre.
A última apresentação pública do maestro ocorreu em 16 de julho, em Londrina (PR), onde conduziu a Orquestra Sinfônica do Paraná no projeto 'Guaíra para Todos', um testemunho de sua dedicação inabalável à democratização da cultura e à difusão da música erudita até os seus últimos dias.
Uma Carreira Brilhante Marcada por Maestria e Mentoria
Roberto Tibiriçá iniciou sua jornada musical precocemente, aos 8 anos, como pianista, lançando as bases de uma carreira que se estenderia por mais de quatro décadas. Sua formação em regência foi profundamente influenciada por Eleazar de Carvalho, com quem colaborou por dezoito anos na renomada Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), absorvendo conhecimentos que o tornariam um dos regentes mais respeitados do país.
Sua batuta guiou algumas das mais prestigiadas orquestras, tanto no Brasil quanto no exterior. Em Portugal, atuou como regente assistente no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, e comandou a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Em solo brasileiro, deixou sua marca em orquestras como a Sinfônica Brasileira (OSB), a Sinfônica Petrobrás Pró Música, a Sinfônica Heliópolis (Instituto Baccarelli), além de ter dirigido as sinfônicas de Campinas, São Bernardo do Campo e Minas Gerais, onde foi regente titular de 2010 a 2013.
Pioneirismo, Reconhecimento e Contribuições Duradouras
Além de sua atuação como regente, Tibiriçá foi um vanguardista. Desde 1974, exerceu a direção artística em gravadoras brasileiras, impulsionando o pioneirismo em gravações de música clássica. É digno de nota sua participação na produção do único LP gravado no Brasil pela lendária pianista Guiomar Novaes, dedicado exclusivamente à música brasileira, um marco gravado no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Sua influência transcendeu os palcos das salas de concerto. Participou de diversas edições do Projeto Aquarius, incluindo o memorável evento de 1997, quando regeu a Missa Campal celebrada pelo Papa João Paulo II no Aterro do Flamengo, diante de um público estimado em dois milhões de pessoas. No final da década de 1980, fundou a Orquestra Nova Filarmonia em São Paulo, que teve o privilégio de acompanhar grandes nomes como o tenor Luciano Pavarotti.
O talento e a dedicação de Roberto Tibiriçá foram amplamente reconhecidos. Em 1995, foi eleito o 'Músico do Ano' pela crítica especializada do Rio de Janeiro e agraciado com o Prêmio Estácio de Sá pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, em reconhecimento ao seu trabalho com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Entre 2000 e 2003, assumiu a direção artística e a regência titular da Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró-Música. Sua contribuição para a academia musical também é notável: em março de 2003, ocupou a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Música, e desde 2018, era membro honorário da Academia Nacional de Música (ANM), no Rio de Janeiro.
Um Adeus, Uma Sinfonia Eterna
A morte do Maestro Roberto Tibiriçá encerra um capítulo de intensa dedicação à música. Sua vida foi uma melodia complexa e harmoniosa, composta por inovações, paixão e um compromisso inabalável com a arte. O mundo perde um de seus mais talentosos regentes, mas a riqueza de seu legado, as gravações que eternizou e as gerações de músicos que inspirou continuarão a ecoar, como uma sinfonia perene, nas salas de concerto e nos corações daqueles que tiveram o privilégio de serem tocados por sua arte. Seu velório será realizado em São Paulo, com detalhes a serem divulgados em breve.