Catadoras de Mangaba: Guardiãs de um Tesouro Ameaçado pela Expansão Urbana em Aracaju
julho 12, 2026 | by cardminas
Em Sergipe, a mangaba transcende sua identidade de fruto para se tornar um poderoso símbolo cultural e ambiental. Nos últimos anos, essa relevância tem se manifestado na resistência de comunidades extrativistas que dependem intrinsecamente da proteção de seus territórios. Em Aracaju, o avanço implacável da expansão urbana na região sul da cidade, um epicentro da especulação imobiliária, coloca em xeque a subsistência e o modo de vida de dezenas de famílias, especialmente mulheres, que dedicam suas vidas à coleta e manejo deste valioso fruto.
A Luta Pela Terra e Tradição na Zona de Expansão
As últimas mangabeiras remanescentes na capital sergipana encontram-se sob forte pressão, ameaçando não apenas o ecossistema, mas sobretudo a autonomia econômica e social das catadoras de mangaba. Imersas em um cenário de urbanização crescente, essas mulheres veem seus espaços de coleta serem cercados por edificações. Maria Eliene Santos, presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL), expressa a magnitude do desafio: “A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade.”
Organização e Reconhecimento da Comunidade Extrativista
A ACCMPLL desempenha um papel fundamental como principal organização política e comunitária para as famílias extrativistas de Aracaju. A associação não só orienta a produção e preserva conhecimentos tradicionais, como também atua na interlocução com o Poder Público para defender os interesses da comunidade. Esse trabalho árduo foi reconhecido com o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) no ano anterior.
O prêmio veio acompanhado de um aporte de R$ 45 mil, recursos que foram integralmente investidos em iniciativas para o fortalecimento da comunidade. Por meio de oficinas e estudos, com o apoio de instituições como a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a associação impulsionou o beneficiamento da mangaba e estimulou o desenvolvimento do turismo de base comunitária na região, diversificando as fontes de renda e valorizando a cultura local.
Proteção Territorial e o Plano de Manejo Popular
O território das catadoras em Aracaju abrange duas áreas contíguas de proteção: a Reserva Extrativista (Resex) Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e uma área da União concedida à comunidade por meio de um Termo de Autorização de Uso Sustentável. Apesar dos diferentes regimes de gestão, ambas as áreas constituem um território cultural unificado, onde famílias, em sua maioria negras, mantêm a tradição extrativista da mangaba há mais de oito décadas.
A defesa desse patrimônio foi celebrada na 5ª Festa da Colheita da Resex Uilson de Sá, evento que marcou o lançamento do Plano de Manejo Popular. Elaborado coletivamente pelas famílias catadoras, com o suporte da associação, o documento visa registrar a memória histórica, promover a conservação da reserva, realizar uma cartografia ecológica e embasar uma gestão participativa do território, garantindo que as decisões reflitam os anseios da comunidade.
Leandro Sacramento Santos, conhecido como Pel, da Associação Raízes, que presta assessoria a comunidades tradicionais em Sergipe, explica a importância do plano: “O plano de manejo foi uma maneira que a gente encontrou, junto com a comunidade, de reorganizar todo mundo em torno da continuidade da luta em defesa do território. A gente ficou com medo de a prefeitura de Aracaju aparecer com um plano pronto e impor regras que não tinham nada a ver com a comunidade.” Uma das controvérsias com o poder municipal, por exemplo, gira em torno da proposta de transformar a Resex em um parque urbano aberto, o que, segundo as catadoras, desvirtuaria a finalidade de uma unidade de conservação criada para proteger seu modo de vida e o uso sustentável. Raquel Fernandes, analista da Embrapa Tabuleiros Costeiros, complementa que, com esta iniciativa popular, “Quando o Estado vier construir o plano de manejo, a comunidade já sabe o que quer.”
O Legado de Uma Luta Contra a Expansão Urbana
O processo que culminou na criação da Resex foi marcado por um histórico de violações de direitos, que quase extinguiu a atividade extrativista na região. A intensificação dos conflitos ocorreu a partir dos anos 2010, quando o avanço da expansão urbana de Aracaju começou a ocupar o território tradicional das catadoras. A implantação de empreendimentos habitacionais e a supressão de áreas de coleta se tornaram uma ameaça constante ao modo de vida dessas comunidades.
De acordo com lideranças comunitárias e apoiadores, a demarcação da reserva extrativista pela prefeitura foi uma condicionante ambiental exigida para o financiamento de um conjunto habitacional pelo Banco Mundial, construído no Bairro 17 de Março, adjacente à reserva. Esse fato sublinha a complexidade da luta, onde a proteção ambiental se entrelaça com a garantia dos direitos humanos e territoriais de comunidades tradicionais.
A história das catadoras de mangaba em Aracaju é um testamento da resiliência e da importância vital de preservar não apenas um ecossistema, mas também um modo de vida ancestral. Elas continuam a lutar não só pela mangaba, mas pela dignidade e pelo direito de existirem em harmonia com a natureza, oferecendo um modelo de resistência e sustentabilidade em meio à pressão incessante do desenvolvimento urbano.
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