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Legado de Luta e Paixão: Pioneiras do Futebol Feminino Revisitam História no Sem Censura

junho 27, 2026 | by cardminas

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Em um resgate emocionante da história do futebol feminino brasileiro, o programa Sem Censura da TV Brasil recebeu, na última sexta-feira (26), três figuras icônicas que desafiaram proibições e abriram caminho para a modalidade no país. Marilza Martins da Silva, a Pelezinha; Marisa Pires, a Caju, primeira capitã da Seleção Brasileira; e Márcia Matos, a Russa, bicampeã sul-americana, compartilharam suas memórias de uma era em que o esporte para mulheres era oficialmente vetado. Suas narrativas não apenas iluminam um período de resistência, mas também celebram a persistência que moldou o cenário atual do futebol feminino.

Do Decreto de Proibição à Regularização: Uma Luta Histórica

O futebol feminino no Brasil enfrentou um período sombrio, sendo proibido por decreto do então presidente Getúlio Vargas, a partir da década de 1940. Somente em 1980 a modalidade foi finalmente regularizada, marcando o fim de quase quatro décadas de impedimento oficial. Nesse cenário desafiador, o Esporte Clube Radar, fundado em 1932 em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, emergiu como um farol, sendo o primeiro clube a abraçar o futebol feminino de forma organizada, servindo de base fundamental para a seleção brasileira nos anos 80 e pavimentando o caminho para futuras gerações de atletas.

O Radar: Berço de Talentos e da Seleção Brasileira

Sob a visão e liderança do empresário Eurico Lyra, o Esporte Clube Radar iniciou sua jornada no futebol feminino em 1981, tornando-se o pilar da modalidade. Lyra não apenas investiu no esporte, mas também batizou talentos, como Marilza Martins, a quem ele carinhosamente chamou de Pelezinha. A alcunha surgiu ao observar a leveza e a habilidade da jogadora nos treinos na areia: “Ela corre e não pisa na areia. Ela flutua e consegue driblar na areia. Aí ela é a Pelezinha”, relembrou o empresário, consolidando o reconhecimento de seu talento precoce. O clube foi fundamental para o desenvolvimento e a visibilidade das atletas, que futuramente representariam o país.

A Camisa Amarelinha e o Sonho Mundialista

Um momento divisor de águas na trajetória das pioneiras foi em 1988, quando Eurico Lyra comunicou às atletas que elas representariam a Seleção Brasileira Feminina de Futebol na China. A emoção de vestir a camisa amarelinha, adornada com o emblema da CBF e o escudo do Radar, foi indescritível. Pelezinha, que inicialmente não tinha a “noção” de um sonho de jogar na seleção, viu essa perspectiva se transformar em um desejo ardente de participar do primeiro mundial feminino. A convocação para esse torneio subsequente concretizou o que antes parecia inatingível, reforçando a crença de que o futebol feminino, apesar de todas as adversidades, era uma realidade potente.

Paixão Inabalável: Estádios Cheios e a Ausência de Salários

Contrariando a percepção comum de que os jogos femininos no passado eram esvaziados, a ex-capitã Caju desmistificou essa ideia, lembrando que os estádios sempre foram lotados, inclusive no 1º Campeonato Sul-Americano de 1995. “Todos queriam ir assistir aos jogos, para ver se as mulheres jogavam bem. Os homens se surpreenderam e diziam que futebol também é para mulher”, afirmou. No entanto, essa paixão não vinha acompanhada de reconhecimento financeiro. As jogadoras não recebiam salários fixos, dependendo do “bicho” – um valor por partida vencida. A ausência de remuneração regular apenas reforça que “a persistência, o amor, a paixão” foram os verdadeiros combustíveis que levaram o futebol feminino ao patamar atual.

Reconhecimento Tardio: A Lei de Incentivo às Pioneiras

Após décadas de espera, um reconhecimento significativo chegou às atletas que representaram o Brasil entre 1988 e 1991. Uma lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva prevê o pagamento de R$ 500 mil a essas pioneiras, além de contemplar os familiares de atletas já falecidas. Caju expressou a emoção desse momento: “Foram 38 anos esperando. Ele veio tarde, mas veio muito bem. Só Deus sabe a emoção que a gente está tendo”. Pelezinha complementou, agradecendo por poder realizar “metade dos planos que sonhei” aos 62 anos, enquanto Caju, emocionada aos 59, celebrou: “O meu choro é por toda uma geração que conseguiu essa conquista”. Esta iniciativa não é apenas uma compensação financeira, mas um símbolo de justiça histórica e dignidade.

O Trabalho Silencioso de Marileia "Michel Jackson" dos Santos

Márcia Matos, a Russa, fez questão de ressaltar a figura essencial de Marileia dos Santos, conhecida como Michel Jackson. Atualmente no Ministério do Esporte, Marileia trabalhou incansavelmente, e em silêncio, por oito anos, para que essa lei de reconhecimento às atletas pioneiras fosse aprovada. “Nós temos que ter essa gratidão a Michel. Ela foi incansável. Correu atrás e conseguiu que as atletas pioneiras do futebol feminino fossem beneficiadas”, comemorou Russa, destacando a importância de seu esforço e dedicação para a concretização desse marco.

As histórias de Pelezinha, Caju e Russa, revisitadas no Sem Censura, transcendem o campo de jogo. Elas representam uma saga de coragem, resiliência e amor incondicional por um esporte que, por muito tempo, tentou ser silenciado. Seu legado é um lembrete vívido de que a paixão, quando persistente, é capaz de derrubar barreiras, inspirar gerações e, finalmente, garantir o reconhecimento merecido. A jornada dessas pioneiras pavimentou o caminho para o vibrante cenário do futebol feminino que hoje testemunhamos, e suas vozes continuam a ecoar, celebrando a vitória de toda uma geração.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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